Por Fernanda fazzio

Donald Winnicott nasceu em 1896, na Inglaterra, mais precisamente em Plymouth. Estudou medicina em Londres, especializando-se em pediatria. Desde muito cedo, Winnicott percebeu a relevância de médicos se colocarem no lugar de seus pacientes a fim de enxergarem o mundo por outro vértice. O interesse pelo funcionamento mental se intensificou a partir das relações de Winnicott com crianças e adolescentes separados de suas famílias no período entre guerras. Ao entrar em contato com A Interpretação dos Sonhos (1900) de Sigmund Freud (1856-1939), o jovem Winnicott encantou-se pela psicanálise, realizando supervisões com M. Klein (1882-1960) e, posteriormente, tornando-se, também, um psicanalista renomado.

O brincar é essencial na clínica psicanalítica de Winnicott, não por acaso conhecido por seu otimismo, compreende a terapia como a manifestação da criatividade indispensável para a descoberta do eu (self). Daí a importância da confiança estabelecida na relação terapeuta e paciente: “Isso nos dá a indicação para o procedimento terapêutico: propiciar oportunidade para a experiência amorfa e para os impulsos criativos, motores e sensórios, que constituem a matéria-prima do brincar. É com base no brincar, que se constrói a totalidade da existência experiencial do homem (WINNICOTT).” Aqui, ser terapeuta não é também um ato artístico e criativo?

Ao formular a teoria sobre “Objetos Transicionais” e a constituição da subjetividade, o psicanalista inglês mostra como o modo de organizar e escolher os objetos do ambiente se relaciona com os nossos sentidos existenciais. Ao estabelecermos relações afetivas com os objetos, construímos em meio a eles nossa história e novas redes de significados.

No campo da criatividade, o “Espaço Potencial” e os “Objetos Transicionais” se somam na constituição de um lugar privilegiado para a criação. Os “Objetos Transicionais” são as formas primordiais de símbolos, já que constroem a ponte entre realidade (fato) e fantasia, objetos internos e externos, criatividade primária e percepção. É nesse espaço que o bebê começa a estabelecer a distinção entre EU e não-EU, dentro e fora, EU e outro, ingressando no estágio de dependência relativa. E é nesse período que o bebê cria/elege os “Objetos Transicionais”, os quais possuem características bem peculiares, por possibilitarem ao bebê lidar com a ausência da mãe e com a sua própria agressividade.

A importância do “Objeto Transicional” é a abertura para a experiência, permitindo ao indivíduo apoderar-se do real, mas sem ser invadido por sua concretude. É também o lugar onde se dá a experiência estética, recheada por múltiplas identificações, assim como por interrogações sobre o “ser sujeito”. Isso nos leva a refletir que a literatura, a música, a dança e as inúmeras formas de expressões artísticas fazem um paralelo com os “Objetos Transicionais”, acendendo potências do vir-a-ser humano por meio das fantasias que se completam na realidade. Assim, a experiência enriquecedora do brincar é uma chave que não pode ser esquecida como abertura para a experiência espontânea e criativa, características de fortalecimento e constituição do verdadeiro self.

Avançando um pouco mais na discussão, D. Winnicott nos ajuda a compreender a questão de uma máscara social imposta por nós mesmos para sermos “aceitos” e “amados” pelos outros (falso self). Rígido, sem graça e voltado para os olhares externos, ninguém escapa de uma dose de falso self. Mas cuidado, é preciso ter um ego fortalecido para driblar as armadilhas e encontrar nossas máscaras verdadeiras.

 

Fernanda Fazzio é psicóloga, psicanalista e escritora (www.fernandafazzio.com.br)

 

Bibliografia Consultada

 

WINNICOTT, Donald. O Ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2007.

WINNICOTT, Donald. O Brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

WINNICOTT, Donald. Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

WINNICOTT, Donald. Tudo começa em casa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

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