Dentre as possibilidades rítmicas do verso, uma das mais difundidas é a rima. Nem sempre foi assim, porém. Entre os poetas gregos e romanos da Antiguidade, a rima não era um recurso usual. Entre os romanos, inclusive, era considerada vulgar e de mau gosto. Embora fosse utilizada na poesia cristã, foi com o trovadorismo, na Idade Média, que a rima começou a ocupar a posição de destaque que perduraria, pelo menos, até a segunda metade do século XIX.

A rima é uma identidade de sons (homofonia) — ou apenas uma semelhança — que ocorre em intervalos regulares, geralmente ao final dos versos. O tipo mais comum, ou o mais consagrado, é o da rima consoante, em que coincidem tanto as vogais quanto as consoantes das sílabas finais das palavras, como se vê na estrofe inicial do “Soneto de fidelidade”, de Vinícius de Moraes:

 

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

    Os primeiro e quarto versos rimam em -ento e os segundo e terceiro, em -anto. Contudo, a rima, em vez da identidade estabelecida pela repetição de vogais e consoantes, pode basear-se na semelhança das sílabas finais por meio da repetição apenas das vogais. É o que chamamos de rima toante. Em Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, encontramos:

Severino retirante,

deixe agora que lhe diga:

eu não sei bem a resposta

da pergunta que fazia,

se não vale mais saltar

fora da ponte da vida;

nem conheço essa resposta,

se quer mesmo que lhe diga;

   

    Percebam que, nos versos pares, há a repetição das vogais i a ao final do verso. A rima toante é muito frequente na poesia e no cancioneiro populares. Naquela conhecida canção de sertanejo romântico:

 

Eu não vou negar que sou louco por você,

Tô maluco pr’a te ver...

 

    Neste caso, a rima se sustenta pela vogal e, de som fechado, na sílaba tônica. Outro tipo de rima são as internas, que ocorrem no interior do verso, geralmente em intervalos regulares. Permitam-me a imodéstia de citar um poema de lavra própria. Na primeira estrofe de meu “Soneto caixa de música”, encontramos:

 

A bela bailarina perolada,

que dança delicada na neblina,

salta sobre a calçada e desatina;

num só gesto, ilumina a madrugada.

 

    Uma variação da rima interna é a leonina, em que uma palavra do meio do verso rima com seu final. Como no caso do famoso verso do poema “O amor tem vozes misteriosas”, de Alphonsus de Guimaraens:

 

Como são cheirosas as primeiras rosas


    Esta é uma introdução básica sobre o tipo de rimas, porém, há mais algumas questões a serem levadas em conta, como veremos no próximo texto.

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