As máscaras e suas metáforas acompanham o homem desde os primórdios. Essencialmente relacionadas com rituais e com o sagrado, as motivações antropológicas de emprego das máscaras buscavam a imitação de elementos da natureza, celebrações de ritos de magia e combate de medos existenciais do homem primitivo.

 

Enlaçadas ao teatro, as máscaras escondem a identidade pessoal do artista, sua expressão psicológica é reservada, mas há a revelação da potência expressiva, justamente, do corpo do ator.  Na tentativa de compensar a inexpressão facial, a amplificação das ações corporais buscam traduzir a interioridade.  

 

Considerando o homem como ser social Erving Goffman (1922-1982) não restringe as máscaras somente aos atores.  Utiliza a linguagem teatral para defender que o sujeito em sociedade sempre usa o recurso da representação para se mostrar aos seus semelhantes. Ao mencionar a crença no papel social representada pelo indivíduo, Goffman aponta que ao desempenhar um papel, o sujeito: (..) Pede-lhes para acreditarem que o personagem que veem no momento possui atributos que aparenta possuir, que o papel que representa terá as consequências implicitamente pretendidas por ele e que, de um modo geral, as coisas são o que parecem ser (GOFFMAN, 2008).”

 

O encanto mágico buscado, aqui, parece ser a capacidade de apresentar-se aos outros sem revelar seus segredos pessoais. As várias máscaras utilizadas diariamente variam conforme os papéis que decidimos assumir, seja no ambiente reservado familiar ou em lugares sociais. Assim, representamos diferentes papéis sociais, mas será que possuímos uma máscara pessoal reúne todas as outras nessa escolha de multiplicidade de forma de ser e existir?

 

O ator exerce o fascínio na irrealização do personagem em si, exteriorizando o seu mais íntimo e sincero. Aqui, sacrifício, sagrado e ofício se invadem. Os artistas que irrealizam os seus personagens em livros, acredito, não escapam das máscaras. Os personagens são partes que se descolam dos artistas para continuar vivendo em outros personagens, existir mais inteiro em outras vidas. Por isso, penso que também poetas, dramaturgos e escritores, não deixem de usar suas máscaras (metafóricas) durante o processo de criação. A exposição, assim, se dá pela revelação desnudada de si em um outro imaginário.

 

Fernanda Fazzio é psicóloga, psicanalista e escritora www.fernandafazzio.com.br

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

BERTHOLD, Margot. História mundial do teatro. São Paulo: Editora Perspecitiva, 2004.

ECO, Umberto. História da Beleza. Rio de Janeiro: Record, 2004.

ECO, Umberto. História da Feiura. Rio de Janeiro: Record, 2007.

DOR, Joel. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

FRAIZE-PEREIRA, João. Arte, dor. São Paulo: Ateliê Editorial, 2010.

FREUD, Sigmund (1856-1939). Obras Completas. Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.   

GOFFMAN, Erving. Representação do eu na vida cotidiana. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2008.

KUPERMAN, Daniel. Ousar rir: humor, criação e psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

LECOQ, Jacques. O Corpo poético. São Paulo: SENAC São Paulo e SESC SPS, 2010.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Rio de Janeiro: Vozes, 1977.

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